Escândalo Prodente – Reportagem que cassou mandato de deputado de Nelson Azedo e afastou Ari Moutinho da política

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Mercado eleitoral  – “Bocas que valem ouro”. Nos dias três e quatro deste mês (maio de 2006), o deputado Nelson Azedo dizia para um auditório cheio de eleitores que a chapa completa da Prodente era formada por Eduardo, Gilberto, Ary e, por ele, Nelson Azedo.  Nove anos depois do escândalo, a Justiça Eleitoral condenou o ex-parlamentar e o filho dele, ex-vereador Nelson Amazonas, a sete anos e dez meses e seis anos e seis meses de prisão, em regime semi-aberto pelos crimes de corrupção eleitoral e peculato. A decisão foi
publicada na edição do dia 23 de março de 2015 do Diário Eletrônico do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE–AM). a setença foi emitida pelo juiz da 1ª Zona Eleitoral, Gildo Alves de Carvalho Filho. O crime ocorreu na campanha de 2006.

Por Castelo Branco e Joaquina Marinho  (15 de maio de 2006) – Na esquina da Rua Henrique Antony, com a Avenida Epaminondas, no centro comercial de Manaus, dezenas de pessoas não paravam de entrar no prédio de número 78. Na portaria, onde era feita a apresentação do comprovante de residência e do Título de Eleitor, a aglomeração era inevitável – fato que levava muitas pessoas a perguntarem se naquele local existia oferta de emprego.

Nada de emprego.

Nos três andares do prédio 78 da Henrique Antony estava a Fundação Prodent – uma poderosa máquina de fazer votos, manipulada pelo deputado estadual Nelson Azedo (PMDB) e pelo filho dele, vereador Nelson Amazonas (independente), que controlavam as bocas e os dentes cariados (podres) de pelo menos 50 mil eleitores pela troca do voto.

Um escândalo de contornos ético e moral, que respondia por quatro mandatos legislativos – todos eles acalentados com o dinheiro do contribuinte, conforme atestam as gravações em vídeos obtidas pela reportagem do Correio Amazonense (Joaquina Marinho, falecida) referente às reuniões realizadas na fundação nos dias 3, 4 e 5 deste mês (maio de 2006).

“Essa é a razão da Prodent ter um deputado e um vereador (Nelson Azedo e o filho). Todo apoio vem do gabinete dos dois. Eu pago pelo meu gabinete 45 dentistas e o vereador 12. A Prodent não tinha como pagá-los. Então nós contratamos 57 dentistas pelos nossos gabinetes”.

É com esse tipo de discurso e outros do gênero que Nelson Azedo se apresentava, diariamente, para milhares de pessoas humildes como “o restaurador do sorriso bonito” que iria “abrir a porta do sucesso para eles”.

Tudo eufemismo.

As porta do sucesso, na realidade, se abriram há 10 anos para Nelson Azedo (três mandatos) e seu filho, Nelson Amazonas, que no site da Câmara Municipal de Manaus esnoba seus 19 mil votos obtidos por ele na última eleição municipal.

Para alguns dos milhares de eleitores com dentes podres, o que sobrou foram alguns acidentes, que serão narrados por um dos ex-dentistas que serviram à Prodent mais adiante.

Pintado de amarelo claro, e recepcionado por uma pessoa do sexo masculino, com idade aproximada de 30 anos, o prédio não tinha letreiro na fachada, mas era reconhecido a distância pelo fluxo dos clientes circulantes.

Na entrada, somente um “identifique-se”, escrito em uma folha de papel afixada na parede.

O primeiro andar do prédio, num auditório com aparelho de DVD e televisão, onde centenas de pessoas com dor de dente aguardavam pela da broca e pelo alicate do dentista, era reservado, exclusivamente, para as reuniões do deputado-dentista, que tira da Assembléia Legislativa e Câmara Municipal de Manaus em torno de R$ 68 mil por mês para pagamento de dentista.

Lavagem cerebral disfarçada

As palestras na Prodent nunca duravam menos do que 30 minutos. O discurso de hoje é o mesmo de ontem e o mesmo que será repetido amanhã, sem nem uma capa de escrúpulo. Uma espécie de lavagem cerebral disseminada pela prepotência dos tiranos e dos ditadores que trombaram na própria arrogância.

“Todos aqui só vão receber o cartão magnético da fundação depois de uma pesquisa que vai passar pela casa de vocês, tá bom? Lá é que nós queremos saber se vocês têm candidato a deputado federal, se vocês têm candidato a deputado estadual. Se vocês sabem o nome do deputado estadual, deputado Nelson Azedo, e do deputado federal, Ary Moutinho”, explica, em tom de coercitivo deboche o dono da Prodent.

Logo em seguida, como que se hipnotizado pelos fascínios do poder, uma nova carta era tirada da manga do paletó do parlamentar facínora sempre na expectativa de coagir o eleitor a aceitar o tratamento dental pela torça do voto:

“A princípio – dizia -, são essas, aí, as primeiras condições do projeto. Porque, quem não quiser não vamos poder ajudar”.

A platéia não reagia.

A dor de dente, provavelmente, era maior do que a vontade de dizer não ao embusteiro e indecoroso Nelson, que tripudiava sobre a boa-fé do eleitor e à Prodent, corrupta – eixo e engrenagem de uma máquina construída para funcionar em períodos eleitorais.

“É aí que o Nelson Azedo barganha votos para ele e o filho dele. Na verdade, troquei meu voto porque não aguentava mais de dor de dente. Qualquer serviço na Prodente está condicionado a troca do voto”, dizia João de Abreu, que residia na Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste de Manaus.

Nas reuniões dos dias 3 e 4 (o ano era 2006), acompanhado do vereador Ary Moutinho (PMDB), o dono da Prodent não deixou dúvida quanto às intenções de manter viva a fundação, criada, segundo ele, por 10 cirurgiões dentistas e pelo médico Euler Ribeiro, ex-deputado federal e ex-secretário de Saúde do estado do Amazonas.

Segundo Nelson Azedo, se as coisas, hoje, são boas, com ele e seu filho, “com a força jovem de Ary Moutinho, em Brasília, Eduardo Braga no governo do Estado e Mestrinho no Senado da República, vão correr às mil maravilhas”.

“A chapa completa é Eduardo e Mestrinho, Ary e Nelson Azedo. Hoje, a Prodente está lutando pela reeleição do Nelson Azedo e pela eleição do vereador Ary Moutinho para deputado federal”, destaca.

No auditório da Fundação Prodent, depois de uma espera de quase duas horas para o início da reunião, e mais 30 minutos de preleção, muitos já se mostravam enfadados e sonolentos, apesar da dor de dente que os castigava.

Nada disso, entretanto, interessava para Nelson Azedo, preocupado, na verdade, em fazer mais eleitores em quantidade que ultrapasse, segundo ele, os 50 mil já existentes.

Apesar de enfadonhas, as reuniões só terminavam depois das juras de fidelidade eleitoral aos candidatos da Prodente, das ameaças do fogo do inferno para os infiéis e, depois, da negação de atendimento aos seguidores das igrejas Universal e Assembléia de Deus.

– Todos aqui, nesse auditório, assumem o compromisso com a Fundação Prodent de vestir a camisa, de marchar e apoiar a reeleição do deputado Nelson Azedo e do nosso deputado federal, Ary Moutinho? Pergunta.
– Sim, responde a platéia, desmotivada.
– Todos foram filmados, todos foram filmados, brinca. Abram logo o coração, conclui Nelson Azedo, despedindo-se em seguida.

Não aos evangélicos

Uma das principais preocupações do deputado Nelson Azedo para não correr o risco do voto escapar de seus domínios era descartar de seus planos eleitorais, por maior que seja a dor de dente ou o tamanho da cárie dental do eleitor, os evangélicos das igrejas Universal e Assembleia de Deus.

Por isso, nas reuniões com os eleitores que, diariamente, mendigavam uma extração de dente, Nelson Azedo colocava em prática todo o seu poder de dissuasão e, sem o menor respeito às convicções religiosas dos visitantes, dispara:

“Quem faz parte das igrejas Universal e Assembléia de Deus levante o braço”.

O silêncio no auditório era quase sepulcral. As pessoas entreolhavam-se, sem nada entender. Mas, quando o deputado-dentista contra-atacava, logo, tudo ficava muito claro:

“Poucos, eu estou vendo bem poucos”, impacienta-se. “Vamos lá, afinal os evangélicos são muitos”, insistia Nelson Azedo.

Para amenizar o constrangimento causado aos evangélicos, o proprietário da Prodent mudava de estratégia e, em tom conciliador, diz nada ter contra eles e os seus candidatos. Mas, sem demonstrar abalo ao desapontamento dos evangélicos, ele segue em frente e dizia que a Prodent tem um projeto e que “não é certo que uns sejam atendidos pela fundação e valorizem outros candidatos” (Silas Câmara e Cia.).

Ainda na tentativa de afastar a hipótese do preconceito religioso, Nelson Azedo, sempre evasivo, dizia que não poderia atender a todos porque “o projeto é muito caro e que as igrejas Universal e Assembléia de Deus têm candidatos tanto federal quanto estadual à reeleição”.

“Eu acho que só deve usufruir dos benefícios da Prodent quem vai vestir a camisa, quem vai suar a camisa ao lado do Nelson Azedo, ao lado de Ary Moutinho, tá certo? Afinal, está em jogo o mandato do deputado da Prodent. Se der uma zebra e o deputado da Prodente perder a eleição, o que vocês imaginam que iria acontecer. Acaba a Fundação”, justifica-se com um toque profético.

– Vocês estão aqui pra ajudar ou para acabar com a prodente? Indagava.
– Pra ajudar, respondeu meio desanimada uma eleitora presente à plateia.

Quem mente vai pro inferno!

A vontade do deputado Nelson Azedo de chegar ao quarto mandato legislativo era quase uma obsessão. Não tinha limite.
Ganhar o voto do eleitor e retornar para a Assembléia Legislativa, para ele não havia escrúpulo naquele jogo sujo, corrupto, ultrajante. Valia tudo, promessas vãs, atendimento odontológico de Primeiro Mundo, ameaças veladas, coerção, abuso do poder econômico e até histórias de inferno, baseadas no clássico de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”.

– Quem mente vai pra onde? Perguntava em tom beirando ao macabro.
– Pro inferno, respondia, em coro, a platéia, com sabedoria irônica.
– Tá fraco. Quem mente vai pra onde?
– Pro inferno, repetia, com mais ironia, os disputadores eleitores da Prodent.
– Pro inferno, reafirma Nelson Azedo.

Daí em diante segue-se um seriado de palavrórios, previamente estudado para o momento certo e para a hora da barganha – um jogo espúrio, iniciado, segundo palavras do próprio deputado, havia 10 anos.

“Esse é o momento da sinceridade. Depois eu não quero passar ao lado daquele tacho, com aquele monte de gente, fogo, com aquela labareda, todo o dia pegando fogo e as pessoas dizendo: ai, doutor, eu menti, eu assumi um compromisso e menti”, teatraliza. “Não é isso (o inferno) que queremos para vocês”, teatraliza mais uma vez Nelson Azedo.

Depois das ameaças do fogo do inferno e das promessas de um sorriso refrescante, Nelson Azedo dá mais um apertozinho na platéia, destacando que, se a adesão ao projeto não for feito até o final de maio, os interessados nos serviços da Prodent deverão contribuir com uma taxa de R$ 30,00 pelo benefício recebido.

Frases curiosas

1. “O Milton Nascimento tem uma cação, não é, uma letra e que letra fantástica. Ele diz que amigo ou amiga é pra se guardar do lado esquerdo do coração”
2. “Eu quero parabenizar pelo presente que vocês estão recebendo”.
3. “Tudo que vocês vão receber aqui, tratamento dental como disse no início é o mais moderno na odontologia atual”.
4. “Além do tratamento de vocês, vocês vão receber, também, o tratamento dos filhos de vocês. Aí estão os dois prêmios que vocês vão receber”.
5. “A Prodente tem um deputado, que sou eu, Nelson Azedo; um vereador, que é o vereador Nelson Amazonas, que foi eleito no ano de 2004. E agora que estamos recebendo um reforço aqui, essa força, jovem, também, que vem para se unir a essas outras duas forças para que a Prodente possa crescer cada vez mais”.
6. “Esses são os dentistas que vão atendê-los. São dentistas de adultos que recebem pelo gabinete do deputado”.
7. “Lançamos um candidato a vereador que foi eleito e, hoje, ele paga pelo gabinete dele os dentistas odontopediatra. São 12 dentistas de criança que recebem pelo gabinete do vereador”.
8. “A prodente está lutando pela reeleição do deputado Nelson Azedo e pela eleição para deputado federal do vereador Ary Moutinho. Nelson e Ary. Nelson estadual e federal Ary Moutinho”.
9. “Mas, se repente acontecesse uma zebra e o deputado da Prodente perdesse a eleição. O que vocês imaginam que iria acontecer. Acaba a Fundação. Vocês estão aqui pra ajudar ou pra acabar com a fundação”.
10. “Eleitor inteligente não vota na pessoa ou nas pessoas, vota no projeto. Tá certo? Nós somos um projeto que vocês ainda vão constatar, vão ser atendidos, vão trazer o filho de vocês, não tem mais o que duvidar. É uma coisa tão fácil, não é”?

Vereador diz que participou da gestação

Nas reuniões dos dias 3 e 4 da semana passada, o vereador Ary Moutinho (PMDB) – agora o mais novo integrante do time Prodente -, aproveitou para fazer revelação “comovente” aos espectadores presentes à fundação: “Eu posso dizer para vocês que participei da gestação da Prodent”.

A platéia, que não estava nem um pouco interessada nas histórias de amor e paixão de Moutinho, não deu a mínima àquela declaração, que beirou ao ridículo.
O experiente vereador, por seu turno, do alto de seus quatro mandatos, não se importou com a falta de inspiração da platéia. Afinal, o seu objetivo era o voto e, lá, na Prodent, existem pelo menos 50 mil cadastrados, segundo cálculos de Nelson Azedo. E para não perder tempo partiu para o ataque:

“Se vocês acreditarem, lutarem e nos ajudarem, nós seremos mais fortes, seremos mais unidos e nós conseguiremos levar a Prodent, sorrindo para Manaus, com o sorriso desse Amazonas que, se Deus quiser, é o sonho de todos nós”.

A platéia, mais uma vez, se mostrou indiferente, apática e cansada de tantas palavras jogadas fora. Mas Ary Moutinho não deu trégua e, abusando do nome de Deus, se municia para novas incursões.

Agora, o discurso era o da persuasão – de convencer o eleitor de que, uma vez em Brasília, os serviços da Prodent seriam ampliados, inclusive, para os filhos, “sócios” da fundação.
“Eu não sou candidato de discurso. Mas, se Deus quiser, em Brasília, vamos trazer para vocês, os serviços que, hoje, ainda não estão disponíveis, como tratamento de canal, prótese dentária e ortodontia”.

Só então, depois de esgotado o farto repertório de juras e promessas, Moutinho resolveu abrir o jogo “abertamente”.

“É por isso que eu digo que, enquanto nós pedimos para que o nosso governador Eduardo Braga, que é um grande parceiro da Prodent, volte ao governo; enquanto pedimos que o deputado Nelson Azedo permaneça como deputado estadual, fazendo com que a Prodente tenha 40 dentistas nos atendendo; quando eu peço a vocês a oportunidade de ser o deputado federal, que vai lutar para a Prodent ampliar, e melhorar seus serviços, nós não estamos, aqui, pedindo ajuda de vocês simplesmente para sermos mais um. Nós queremos dar o que vocês reconhecem como um bom serviço odontológico”.

“Isso é corrupção com C maiúsculo”, diz Beth

A ex-deputada federal Beth Azize, uma das mais expressivas e respeitadas figuras da política do estado do Amazonas, garante que o uso de verbas de gabinete, na forma adotada pelo deputado Nelson Azedo e seu filho, vereador Nelson Amazonas, “é corrupção com C maiúsculo”, que enseja a perda de mandato.

Beth Azize, que presidiu a Assembléia Legislativa do Amazonas (Ale) em 1983, e exerceu o cargo de juíza por 10 anos, garantiu, ainda, que os 57 dentistas pagos com verbas de gabinete da Assembléia Legislativa e Câmara Municipal de Manaus (CMM) são no mínimo funcionários fantasmas porque dão expediente na fundação Prodent, que não tem qualquer vínculo da a Ale.

“Isso é uma grande imoralidade, um crime que merece a imediata interferência do Ministério Público, que deve propor urgentemente a cassação dos parlamentares, assim como o fechamento da Prodente”, explica. “Esse deputado e o filho dele e o Ary são loucos de pedra”, pondera.

Na avaliação da ex-deputada, a verba de gabinete significa a substância mais evidente da indecência parlamentar, geradora da corrupção, e que permite, entre outros abusos de poder, a nomeação de assessores “fantasmas” para engordar os ganhos do deputado.
“A verba de gabinete é uma excrescência que deveria ser abolida das Casas Legislativas. Afinal, pois é o povo que sustenta esses vagabundos”, condena.

MPF quer cassação de mandatos

MANAUS,AM, 10/01/2013. POLITICA – AGEU FLORENCIO, PRESIDENTE REGINAL ELEITORAL. FOTO: ERICA MELO/ACRITICA.

O Ministério Público Federal (MPF), por meio do Procurador Geral da República, Ageu Florêncio, reconheceu que, tanto o deputado Nelson Azedo (PMDB), quando os vereadores Ary Moutinho (PMDB) e Nelson Amazonas (independente) podem perder o mandato pelos crimes de abuso do poder econômico e político, afronta à legislação eleitoral, crime contra a administração pública e improbidade administrativa.

A conclusão do Ministério Público foi baseada na análise dos vídeos entregues pela reportagem do Correio Amazonense referentes às reuniões realizadas na Prodent nos dias três e quatro deste mês e dirigidas pelo deputado Nelson Azedo.

Veja a entrevista  

Correio Amazonense – Dr. Ageu Florêncio, o que representa para o Ministério Público o uso de verbas de gabinete carreadas da Assembléia Legislativa do Estado e da Câmara Municipal de Manaus para pagamento de dentistas da Prodent.
Ageu Florêncio – Essa conduta configura afronta à legislação eleitoral, nitidamente presente o abuso econômico. Essa prática é punível com a declaração de inelegibilidade dos envolvidos.

CA – Nas reuniões dos dias três e quatro, o deputado Nelson Azedo e o vereador Ary Moutinho pedem votos, abertamente, aos clientes da Prodent como forma de garantir suas eleições. Isso é legal?
AF – Tal conduta resta configurada, igualmente, a prática de conduta vedada aos agentes públicos em campanhas eleitorais, as quais estão previstas no art. 73, da Lei 9.504/1997, e a Resolução TSE 22.158/2006, e que tem como sansão, além da imediata suspensão da prática, a aplicação de multa aos envolvidos e a cassação, se for o caso, do registro ou diploma dos candidatos beneficiados.

CA – Procurador, o uso de verbas de gabinete para pagamento de dentistas contratados pela Prodent caracteriza desvio de verbas públicas?
AF – Sim. Essa prática consubstancia ato de improbidade administrativa. Logo, de competência da Justiça Comum Estadual.

CA – Nas reuniões, os parlamentares (Nelson Azedo e Ary Moutinho) impõem regras claras e nada convencionais para tirar o voto do eleitor. Ou seja, para extrair um dente ou realizar uma restauração, as pessoas são quase obrigadas a prometer o voto em troca de uma extração de dente. Essa conduta não fere o decoro parlamentar?
AF – Sim. Os parlamentares atuam com quebra de decoro parlamentar, claramente, estando sujeitos à cassação de seus mandatos pelas respectivas casas legislativas.

Perfuração no maxilar

Convencer o eleitor de que os serviços da Prodent são iguais aos melhores oferecidos pelos consultórios odontológicos do Vieiralves, condomínio de classe alta de Manaus, é tarefa prioritária e imprescindível nas reuniões dirigidas pelo deputado Nelson Azedo no auditório do primeiro andar do prédio 73 da Henrique Antony.

Ao contrário das afirmações de ex-funcionários da Prodent, que enumeram a falta de higiene e falha nos serviços entre outros problemas, Nelson Azedo garante que o tratamento dental realizado na instituição “é o mais moderno da odontologia atual”.

“As obturações serão a laser. Obturações com esse material (resina, amalgama, etc.), qualquer profissional, até os que atendem aqui, cobram pelas menores restaurações R$ 100,00, tá certo? Aqui, vocês vão ter esse tratamento de graça”, enfatiza o deputado.

O vereador Ary Moutinho, que o acompanhou nas reuniões dos dias dois e três, aproveitou para fazer coro às palavras do deputado e, como um expert em odontologia, reforçou:

“O Nelson conseguiu, através de um grupo de amigos, oferecer tratamento da melhor qualidade e no mesmo padrão das clínicas do Vieiralves e do Centro da Cidade, de modo gratuito para a população”, assevera o candidato a deputado federal da Prodent.

E para distrair os eleitores mais cépticos, Ary Moutinho esboçou uma brincadeira com o seu amigo à reeleição estadual, dizendo que, no início, achava que o Nelson era louco por oferecer, “gratuitamente”, à população serviços caros e de alta qualidade.

“Achava que o Nelson não estava bom da cabeça, não. Os médicos prescrevem e dão as receitas para os pacientes e os pacientes vão embora. É uma coisa que é barata, é simples. O médico só gasta a tinta da caneta, não é verdade”, arremata Ary Moutinho, que fez questão de lembrar que tanto a resina, quando o amalgama, a luva e o anestésico são produtos de alto custo.

Fraturas

A reportagem do Correio, em contato com alguns dentistas que trabalharam na Prodent, levantou que, diferente do que disseram Nelson Azedo e Ary Moutinho, os serviços na Prodent não são tão bons como dizem.

Acidentes de perfuração do seio maxilar, provocado pelo emprego do martelo de fazer extração, fratura do tuber, osso do maxilar, próximo ao terceiro molar, figuram entre os acidentes apontados por ex-funcionários da fundação que, falaram, também, da sobrecarga de trabalho imposta para que todos sejam atendidos.

Outras questões trazidas à reportagem dizem respeito à falta do sugador – importante acessório para a prática da odontologia, indispensáveis nas cirurgias, restaurações e até mesmo nas extrações dentárias.

Mas, de todos os problemas descritos pelos ex-funcionários, a falta de higiene se destaca como o mais grave. As luvas, por exemplo, são reaproveitadas mesmo depois de serem usadas pelos auxiliares para abrir a porta, atender ao telefone, pegar no material usado, como alicate, algodão com sangue e a cuspideira.

“A falta de higiene é gravíssima. Os equipamentos de extração e cirúrgicos, brocas de alta e baixa rotação, gaze e luva não são esterilizados no tempo recomendado pelo Ministério da Saúde”, condena um dos odontólogos.

Dentistas pagos pela Prefeitura

O deputado Nelson Azedo omitiu, nas reuniões dos dias dois, três e quatro, aos eleitores da Prodent, que a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Administração (Semad), também, é mantenedora da fundação.

Conforme apurou a reportagem do Correio, em novembro do ano passado cinco pessoas foram contratadas pela Semad, com salários de R$ 1.941,82 (ver fotos), para prestar serviço como dentista na Prodent.

Desse total, três foram dispensados porque, segundo foram informados por uma das funcionárias de nome Mirlândia, não se enquadravam ao projeto. Os ex-funcionários ainda tentaram contemporizar a situação. Procuram a Semad, que nada sabia sobre a questão, e um cidadão de nome Fernando, da Comissão Parlamentar da Assembléia Legislativa, que, também, desconhecida o assunto.

Dias depois – comentam os dentistas -, o próprio Fernando comunicou aos odontólogos, que o Nelson Azedo estava mais interessado em mantê-los na fundação. “Entendemos o recado e, depois de receber os nossos direitos trabalhistas, saímos para outra”, cometa um dos dentistas.

De acordo com os ex-funcionários, as contrações efetuadas pela Secretaria Municipal de Administração contaram com a interferência pessoal da diretora do órgão, Suely Marinho, que os chamou por telefone para tratar de assunto sigiloso.
Um dos funcionários, que já recebia pela Comissão Parlamentar da Assembléia Legislativa, disse que chegou a pensar que o chamado tinha relação com o processo seletivo adotado pelo prefeito Serafim Correia (PPS).

O encontro foi muito estranho. A diretora da Semaf, pediu que providenciássemos os documentos, alguns exames porque a partir daquele dia nossos salários seriam pagos pela Prefeitura de Manaus e não mais pela Assembléia Legislativa”, lembra um dentista.
Hoje, dos cinco dentistas contratados pela Semaf é certo que dois, Raudson e Cláudia, continuam com vinculados ao município e à disposição da fundação Prodente.

Veja o vídeo, abaixo: