Análise: Educação brasileira a passo de tartaruga

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Recentemente foi divulgado pelo governo federal a expansão do programa Aprender Valor, do Banco Central, cujo objetivo é “incentivar o desenvolvimento de competências financeiras por parte dos estudantes, para que possam desenvolver uma relação consciente, responsável e autônoma dos recursos financeiros desde a infância”.

O programa é, antes de tudo, necessário, visto que ano após ano – mesmo antes da pandemia – a inadimplência no Brasil já vinha batendo recorde atrás de recorde. Via de regra, o brasileiro não é um mau pagador, no sentido dever propositalmente para obter vantagens, como comprar algo com o intuito de não pagar ou qualquer outro tipo de atividade que possa configurar fraude. O brasileiro é simplesmente descontrolado quando o assunto é dinheiro.

Segundo levantamentos feitos por empresas de análise de crédito, os principais causadores da inadimplência no Brasil são cartão de crédito e limite de conta corrente. Ambas as modalidades, não por acaso, têm as taxas de juros mais altas do mercado, fazendo com que uma dívida cresça tão rápido que sua liquidação se torna quase impossível. E o principal motivo que leva as pessoas a recorrerem ao uso incorreto desses meios vem da junção de três fatores: descontrole financeiro, facilidade de acesso e falta de conhecimento.

A maioria dos brasileiros não faz nenhum controle de orçamento e não sabe quase nada sobre o sistema financeiro, afinal, não consegue nem mesmo perceber que uma taxa de juros de 8% ao mês – em um país onde a taxa básica está em 4,25% ao ano – é absurdamente alta. Em suma: o brasileiro não sabe lidar com o próprio dinheiro e acaba pagando muito caro por isso.

Como educadora financeira, uma das queixas que mais ouço é sobre a falta de orientação, e não há quem não concorde que finanças pessoais deveria ser disciplina escolar. Eu mesma redigi uma proposta, quatro anos atrás, e encaminhei a um vereador de São Paulo que a usou como base para um projeto de lei que, adivinhe, foi vetado pelo prefeito. A burocracia e um número inimaginável de impedimentos vem emperrando a implantação da educação financeira nas escolas há anos, talvez décadas.

Nathalia Arcuri, fundadora do maior canal de finanças do mundo, com mais de seis milhões de seguidores no YouTube, publicou um desabafo hoje em seu Instagram: “Muitas vezes me frustrei com a lentidão do poder público pra implementar iniciativas de longo prazo e cheguei a ir a Brasília pra tentar convencer a galera do Banco Central a expandir a atuação junto ao MEC. Uma burocracia tremenda que agora encontrou um rumo na vida”.

Arcuri se refere ao programa Aprender Valor que, no momento, está sendo implementado em caráter experimental e permite que qualquer instituição da rede pública de ensino fundamental possa aderir à educação financeira em escolas. A etapa piloto do programa começou timidamente, apenas no início de 2020, quando o Brasil batia mais um recorde na inadimplência, e só agora começa a ser expandida.

Atualmente apenas 429 escolas em 257 municípios estão envolvidas no projeto. Considerando que o Brasil tem 5.568 cidades, não chegamos nem a 5% delas em um ano e meio de implantação. Nesse ritmo, levaremos décadas para que uma mudança real e efetiva aconteça, portanto, é preciso acelerar o passo.

Quem sabe não seria uma boa ideia copiar a estratégia que fez com que, em tempo recorde, a ideologia de gênero invadisse as escolas de norte a sul do país? Não se tem notícia de que essa doutrinação – que não passa de ideia e nada tem a ver com ciência – tenha sofrido tamanha resistência. Ao contrário, sem nem mesmo que os pais soubessem, seus filhos já estavam sendo introduzidos a uma ideologia com a qual a maioria não concorda ou acha desnecessária como matéria escolar.

Sem dúvida alguma a iniciativa do Banco Central é louvável, mas é inevitável comparar a morosidade de implantação de algo tão necessário – e que impacta tão profundamente o país como um todo – com a rapidez da infestação de um assunto controverso e altamente discutível como a ideologia de gênero. É preciso que este país mude sua estratégia o quanto antes, pois apenas engatinhar em direção ao progresso enquanto outros correm em direção ao progressismo não vai nos levar muito longe.